Especialista
defende o uso de toda e qualquer tecnologia na sala de aula, desde que os
professores estejam preparados.
“A mera
presença dos objetos técnicos em sala de aula não significa necessariamente
inovação. Pode até ser um grande retrocesso. O computador sozinho não faz
nada”, afirma Edvaldo Couto, professor da Universidade Federal da Bahia. Doutor
em Educação pela Unicamp e palestrante das duas edições do InovaEduca 3.0, SP e Recife, ele
trabalha em suas pesquisas temas como cibercultura, tecnologias educacionais e
criação de narrativas em ambientes digitais.
Em entrevista ao Porvir, o professor abordou as questões que permeiam o uso da tecnologia na sala de aula, como isso tem sido feito no Brasil e, ainda, falou sobre as perspectivas educacionais para um futuro próximo. Confira:
Defensor assíduo do “uso de toda e qualquer tecnologia em sala de aula”, Edvaldo acredita que a Educação 3.0 será aplicada com sucesso quando alguns problemas estiveram solucionados, como a falta de infraestrutura nas escolas e a má formação tecnológica dos professores.
Em entrevista ao Porvir, o professor abordou as questões que permeiam o uso da tecnologia na sala de aula, como isso tem sido feito no Brasil e, ainda, falou sobre as perspectivas educacionais para um futuro próximo. Confira:
Defensor assíduo do “uso de toda e qualquer tecnologia em sala de aula”, Edvaldo acredita que a Educação 3.0 será aplicada com sucesso quando alguns problemas estiveram solucionados, como a falta de infraestrutura nas escolas e a má formação tecnológica dos professores.
Como usar a
tecnologia de forma inovadora?
Edvaldo
Couto - A mera presença dos objetos técnicos em sala de aula não
significa necessariamente inovação. Pode até ser um grande retrocesso. O
computador sozinho não faz nada. A Educação 3.0 é a tecnologia de pessoas, que
integra pessoas. Para usar as tecnologias digitais de forma inovadora nas
práticas docentes precisamos solucionar simultaneamente três problemas:
1 – Melhorar
a infraestrutura tecnológica. Existem escolas que receberam computadores e não
têm luz elétrica ou acesso à internet. Muitas escolas não têm água potável, não
têm biblioteca, não tem sequer professores. Para complicar, os computadores são
em número limitado, não tem para todos. É preciso ampliar e criar novas
políticas públicas capazes de construir uma boa infraestrutura tecnológica nas
escolas.
2 – Melhorar
o acesso à rede. A banda larga no Brasil é uma piada. É preciso investir e
melhorar a banda larga, entender que conexão é uma necessidade básica da
população. Os custos no Brasil, por um serviço sempre ruim, são altíssimos.
Precisa reduzir drasticamente o custo e ampliar a velocidade da rede. A
internet veloz precisa estar disponível nas escolas. Não pode ser um projeto de
algumas escolas particulares e muito caras. Deve ser presença em todas as
escolas. Em cada escola pública.
3 – Formar
adequadamente os professores para a cultura digital. Muitos professores não
sabem o quê nem como fazer uso das tecnologias digitais em suas práticas
docentes. Não pode ser apenas um cursinho de poucos horas para ensinar a ligar
e desligar aparelhos. Os professores devem ser letrados digitalmente, ter
autonomia e liberdade, precisam ser sujeitos integrados na cultura digital.
Esses três
pontos na verdade ressaltam que, quando se fala em tecnologias digitais não
mais falamos em máquinas, mas em pessoas conectadas, fazendo coisas incríveis
porque estão juntas, trabalham em parcerias, de modo coletivo. Se as pessoas
não estiverem conectadas e não tiverem liberdade para discutir e criar, nada
mudará na educação.
Uma de suas
pesquisas é voltada para a Narrativas de Professores nas Redes Sociais
Digitais. Como elas podem auxiliar no processo de aprendizado?
Couto - É
possível que o mais extraordinário da nossa época seja o fato de qualquer
pessoa conectada a internet poder narrar a sua história, contar sobre o seu
modo de ver os acontecimentos, opinar sobre um produto, discutir e difundir
ideias. A Web 3.0 potencializou essa condição e permitiu a cada um narrar e
publicar suas experiências. Então, as narrativas, sobretudo as pessoais, se
multiplicam a cada dia nessa esfera pública que é a rede. Muitos professores
vivem conetados, são incríveis narradores de si, mas sobretudo de suas práticas
docentes. Essas narrativas de professores, especialmente nas redes sociais
digitais, orientam, estimulam e se misturam a milhares de outras narrativas de
alunos. Qualquer processo de ensino e aprendizagem se mostra mais rico e
interessante em meio a essas trocas contínuas.
Como deve
ser o processo de integração desse professor na cultura das redes sociais?
Couto - Essa é
uma boa questão, porque de fato vivemos uma estimulante e sedutora cultura das
redes sociais digitais. Muitos são os professores integrados a algumas dessas
redes, mas poucos usam as potencialidades desses ambientes nas suas práticas
pedagógicas. Esse parece ser o nosso maior desafio: incentivar professores a
inovarem práticas docentes usando as redes sociais digitais. E aqui o
importante não é apenas distribuir tarefas, mas, principalmente, criar e manter
espaços contínuos e ativos de discussões, produções e difusões de
conhecimentos.
E como
definir a Educação 3.0?
Couto - A
educação 3.0 traz as tecnologias digitais para a sala de aula para estimular a
produção e a troca de conhecimentos. A ênfase não deve estar nos objetos
técnicos, seus ambientes e aplicativos, mas nas interações, nas trocas, no
fazer coletivo. Então a sala de aula passa a ser qualquer ambiente onde as
pessoas se conectam umas as outras e criam, encontram soluções para seus
problemas, enfrentam coletivamente seus dilemas. Onde tem pessoas conectadas,
tem ensino e aprendizagem mediados por tecnologias digitais. O professor não é
mais aquele que transmite um determinado saber pronto. Ser professor na cultura
digital implica coordenar, orientar, incentivar a aprendizagem colaborativa e cada
vez mais personalizada. Não se trata mais de uma mesma tarefa para todos num
determinado espaço e tempo. O professor agora é aquele que coordena as
atividades em torno de algum problema, ou de determinados problemas. Assim,
muitos grupos, em diferentes espaços e tempos, podem trabalhar em conjunto.
Cada professor, cada aluno, pode abrir uma frente de investigação e todos podem
compartilhar dúvidas e descobertas. A troca contínua de experiências passa a
ser um valor fundamental da Educação 3.0. Ela depende menos dos objetos
técnicos utilizados e mais das articulações que são feitas. Estar conectado
passa a ser a condição desse “estar junto e produzir coletivamente”.
Como ela tem
sido usada no Brasil?
Couto
- Essas experiências estão presentes em muitas escolas no Brasil.
Mas ainda não é o suficiente porque em muitos ambientes escolares o modelo
transmissivo impera. Os usos frequentes das tecnologias digitais nos processos
de ensino e aprendizagem vão mudar radicalmente o modo como concebemos a
educação. Essas mudanças já podem ser percebida onde encontramos professores e
alunos engajados, motivados e prontos para enfrentar os desafios de hoje e do
futuro. O importante aqui é perceber que o aprendizado se dá por meio de ações
continuadas, que não se restringem às oportunidades apresentadas pelo
professor, dentro de uma sala de aula tradicional. As pessoas estão cada vez
mais conectadas e isso permite explorar muitas possibilidades, criar de muitas
maneiras, cada um pode desenvolver o seu ritmo de aprendizagem, abrir-se para
experiências sempre renovadas.
Como seria a
educação ideal para os próximos 5 (talvez 10) anos?
Couto
- Não me agrada muito pensar em certas visões tão difundidas de
alunos enfileirados na frente do computador. Com as tecnologias móveis e cada
vez menores as pessoas estão conectadas umas às outras por meio de muitos
aparelhos. A tendência é que esses aparelhos se tornem progressivamente quase
imperceptíveis. Hoje já falamos numa internet corporal. Cada corpo se conectará
a outros corpos. As máquinas, como intermediárias da conexão, poderão
desaparecer. Restarão as pessoas conectadas e inventivas. Essa seria a
realização mais plena do ciborgue. As escolas tradicionais funcionarão ainda
por muito tempo e provavelmente algumas gerações ainda lutarão por inovações
pedagógicas sempre aprisionadas por burocracias na gestão escolar. Os avanços
serão tímidos, mas já importantes, como alguns já citados. Viveremos ainda um
bom tempo entre paredes e redes. Mas também é possível desejar e imaginar que
brevemente as paredes poderão ser derrubadas e que a escola será não um lugar,
mas a extraordinária rede de conexões das pessoas cada vez mais empenhadas em
processos de ensino e aprendizagem colaborativos. Aí a sociedade do
conhecimento será de fato construída e vivenciada democraticamente.
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